terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Diálogo

Um dia me disseram que texto que vem assim sem querer não deve ser editado porque perde o sentido.

Esse é daqueles que vem quando a gente deita pra dormir e pensa.
E não largam enquanto a gente não levanta e grava.
E deixam quando a gente deita pra pensar e dorme.
Porque quando a gente deita pra pensar, a gente edita.
E quando a gente edita deixa o sentido dele existir de lado.

Esse é pra Raíssa Andrade, porque se não fosse por ela eu ia editar e ele não ia existir mais.


— Você me ama?

— Eu amo a ideia de te amar e de você me amar de volta. Mas se eu te amo e se você me ama de volta? Isso é outra história.

— Eu acho que te amo de volta.

— E mesmo assim não quer assumir seu amor?

— Não.

— Por quê?

— Tenho medo de você não me amar primeiro.

— Então que tal a gente descobrir se a ideia é verdadeira enquanto a gente permanece sem ficar?

— Mas ficar é permanecer.

— Então a gente fica no sentido literal.

— Acho bom. A literatura sempre foi nossa mesmo.

— Então a gente fica no sentido literal, até sair do livro e virar real.

domingo, 16 de fevereiro de 2014

A garota das palavras




You speak in words without a sentence
You're the ghost that haunts me without a presence
(Gabrielle Aplin – Let me in)


A garota mantinha-se no canto, apenas observando, com a folha ainda em branco descansando sobre suas pernas cruzadas. O chão duro nunca fora um desconforto para ela, o único problema eram as palavras e pensamentos que não conseguia transcrever para o papel.

Palavras. Achava que sempre tivera dificuldade com elas, mesmo quando todos diziam o quão bem ela conseguia manipulá-las. Manipulá-las, pensava ela, como era um absurdo alguém supor que palavras poderiam ser manipuladas. Elas apenas eram, por conta própria e numa vontade completamente desprovida de sentido. Elas apenas surgiam de lugar nenhum para acabarem em lugar algum.

Mas ela queria que deixassem lugar algum e terminassem em algum lugar. Queria escrever uma história encantada sobre criaturas mágicas pairando sobre sonhos reais. Queria desenvolver as ideias que já vagavam em sua mente e, ao mesmo tempo, teimava em deixar as velhas de lado e agarrar-se àquelas novas que nem existiam ainda. Talvez apenas quisesse entender o que queria.

Talvez só precisasse colocar todos aqueles talvezes no papel em branco e deixar-se mergulhar naquela história ainda sem enredo sobre as criaturas fantásticas. Talvez estivesse mais uma vez cansada do tão intenso talvez. Talvez devesse apagar a palavra talvez do dicionário de uma vez.

-

Ele fingia esconder seus pensamentos nos livros enquanto imaginava o que tanto a garota divagava. Os olhos dela estavam sempre acompanhando-o para onde fosse, mas sabia bem que na verdade não o notava com nitidez. Era mais como se estivesse num canto da visão periférica: podia ser constatado, mas não focalizado, e menos ainda entendido. E menos ainda compreendido.

Ele sim a observava. Percebia-a com uma clareza quase absurda. Sabia muito bem que logo a mão começaria a se mover, riscando palavras que nunca pode ler. Palavras que tanto queria ler.

O que não sabia era que na verdade a mão dela não riscava palavra alguma. Que na verdade era sim observado, notado, focalizado e todo o resto. O que não sabia era que ela só continuava lá no chão duro para vê-lo em meio aos devaneios.

-

A garota levou a caneta até o papel e começou a rabiscar o que ele achava serem palavras. Baixou um pouco o rosto, mas manteve as pálpebras bem abertas, analisando a imagem que passava dos olhos para os dedos.

Por mais que a descrevessem até mesmo como escritora, para aquelas folhas em branco preferia sempre as imagens. Tentara com palavras, mas elas pareciam sempre soltas em frases ainda mais soltas. Elas nunca foram capazes de transcrever a realidade desenhada em sua frente.

Eram queridas, as palavras, mas elas não poderiam descrevê-lo. Na verdade nem o desenho podia, mas através dos traços podia prestar atenção nos detalhes e na visão que era apenas dela.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

O Fantasma da Fada

Esse conto foi feito como presente de amigo secreto para a Lívia Garcia e os personagens são de Cyan (um projeto de livro que ainda estou desenvolvendo), portanto, algumas informações podem estar confusas para os que não sabem sobre sua história.


— Acho que na verdade estou enganada quanto a você, criança.
— Por que todos insistem com essa coisa de criança? - reclamou.
— Porque é o que vocês todos são, mas não conseguem enxergar. Vivemos antes d’A Queda e conhecemos Cyan de uma forma que vocês nunca imaginariam. Alguns viveram mais a transição que a fase boa, mas a maioria de nós, criaturas mágicas, tivemos nossas vidas construídas enquanto o dom perdurava, e aqueles que amávamos foram tirados de nós durante a transação.
— Os humanos também sofreram perdas.
— Mas são nossas espécies que estão sob ameaça, e as nossas famílias é que foram destruídas.
— Não apenas as suas. – corrigiu.
— Tem razão, alguns humanos também perderam, mas diferente de nós, a morte faz parte de suas vidas com muito mais frequência. Suas jornadas são curtas e seus corpos não resistem muitos anos. As gerações mudam rapidamente e a memória também se perde com a mesma facilidade, talvez por isso algumas criaturas tenham suas reservas quanto aos humanos.
— Mas vocês também morrem.
— Sim, no entanto o curso natural é que vivamos centenas e centenas de anos, vocês mudaram isso. Vocês humanos são todos crianças para nós.

Brenton se calou por um momento, como que desistindo de retrucar ou questionar. Se os julgavam tão inexperientes e infantis, como poderiam colocar a responsabilidade dos dons sobre eles? E por que é que tal dádiva fora concedida aos humanos, tornando-os responsáveis pelas criaturas mágicas?
Seus olhos observavam a fada quase estática ao seu lado, sentada de costas para o mar enquanto a brisa balançava suas asas. Não tinha respostas para aquelas dúvidas, mas talvez estivesse fazendo as perguntas erradas.

— Por que acha que está enganada sobre mim? – ele questionou relembrando o início da conversa.
— Acho que me confundi, me deixei levar por minhas memórias e esqueci que você, por mais parecido que seja, não é aquele que uma vez esteve em minha história.

Os olhares se encontraram por um momento, o verde confuso enquanto o lilás apresentava certa inquietação. A fada sorriu e balançou a cabeça levemente, piscando as pálpebras como se alguma lágrima estivesse tentando chegar ao rosto.

— Sabia que apenas humanos se tornam fantasmas? – ela desviou o assunto.
— Não, mas sempre os imaginei como humanos.
— Apenas humanos se tornam fantasmas porque apenas humanos sentem que a vida é curta demais e preferem continuar por aqui. Nós já vivemos tempo demais e sofremos perdas demais para desejar mais tempo nesse mundo.
— E como eles são? – ele deixou a curiosidade falar mais alto.
— São criaturas amarguradas. Eles percebem rapidamente que a morte não é nenhuma punição e que a vida longa não é nenhuma dádiva. Muitos presenciam o fim de seus familiares e ficam presos em seus espectros de semi-vida.
“Cada um é feito para seu próprio tempo. Vocês são preparados para os anos que devem viver, assim como nós. É sempre um erro tentar enganar a morte, e ela sempre cobra suas dívidas.”

Liv levou a mão ao rosto cabisbaixo, os cachos volumosos escondiam seus olhos, mas Brenton tinha quase certeza que os dedos dela limpavam suas lágrimas.

— Quem é que esteve em sua história? – ele voltou ao assunto que ela parecia fugir.
— Seu nome era Bryan e ele era um possuidor antes d’A Queda. – admitiu. – Vocês se parecem em vários aspectos, não apenas no nome.

***

O ar remexeu ao redor da fada e suas asas perderam a estabilidade por um momento. Seus pés tocaram o chão e seus olhos percorreram o lugar tentando encontrar de onde viera a rajada repentina.

— Você sabe que nunca vai conseguir me surpreender fazendo esse alvoroço todo antes de aparecer, Bryan. – ela riu enquanto continuava olhando ao redor.
— Não consigo resistir, desculpe. – um sorriso enfeitava seu rosto.

Ele saiu por entre as árvores com o cabelo bagunçado e um tom brincalhão na face, como de costume. Talvez os humanos realmente fossem para sempre crianças.

— É incrível como vocês, humanos, gostam de reclamar por serem chamados de crianças quando não se importam de se comportarem como tal. – brincou.
— E é incrível como você gosta de deixar clara sua idade avançada. – replicou.

O ar se agitou ainda mais e uma corrente tirou-a do chão, suas asas foram manipuladas pelo vento e seu corpo deslocou-se graciosamente até perto dele. O vento finalmente parou.
Os braços dele envolveram-na num abraço assim que ela se aproximou, tomando cuidado para que as asas continuassem livres. O possuidor puxou-a para mais perto deixando que seus corpos se encontrassem.

— Pelo menos agora é uma criança que sabe controlar o ar com mais suavidade e não tenta arrancar minhas asas com um vendaval. – ela devolveu o sorriso.
— E por acaso a senhorita acredita que crianças podem fazer isso?

Bryan puxou-a suavemente pelo pescoço, trazendo seu rosto para mais perto dele, deixando os lábios se tocarem e mantendo-a junto de si.

***

— Ele tinha um dom raro, podia controlar o ar ao seu redor. – ela sorriu com a lembrança. – Bryan conseguia manipular outros elementos com a força do ar e também era muito útil nas batalhas, podia afastar os inimigos ou impedir que eles tivessem o oxigênio necessário nos pulmões. Mas apenas quando estavam próximos; a distância era sua limitação.
— E o que aconteceu com ele?

Ela suspirou e deixou outra lágrima escapar. Brenton aproximou-se e colocou seu braço em torno da fada, num gesto de conforto.

— Foi mais uma vítima d’A Queda.
— Sinto muito.
— Sinto muito por seus pais.

Os olhares se encontraram novamente. O verde dele no mesmo tom daquele que um dia fora humano, sempre uma recordação para a fada. Liv sorriu para o garoto quase como costumava sorrir para o homem.

— Desculpe, não deveria distrair sua mente com minhas velhas histórias.
— Acredito que eu precisava de alguma distração.
— Prometo que te apresento para ele quando voltarmos à Alvar.
— Apresenta? – a dúvida estampou-se na expressão de Brenton.
— Sim.
— Mas ele não... – ele teve receio de falar.
— Não. – ela entendeu. – Ele escolheu a amargura da semi-vida num espectro no lugar da morte.


quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

A Fúria dos Reis, George R. R. Martin

(contém spoilers de A Guerra dos Tronos)

“Só a morte pode pagar pela vida.” (Jaqen H’ghar)

Neste segundo volume de As Crônicas de Gelo e Fogo, George Martin continua demonstrando seu talento como escritor e comprovando o motivo da série ser tão elogiada em todo o mundo.
Depois de decapitar Eddard Stark, proclamar Renly e Robb como reis e trazer os dragões de volta a vida, A Fúria dos Reis começa em meio à guerra, dor e expectativas para personagens e leitores. Um cometa vermelho brilha no céu e leva para cada um diferentes sinais, mas uma coisa é certa: O Inverno está realmente chegando.

“O inverno chega para todos nós.” (Catelyn Stark)

A guerra domina os Sete Reinos. O Rei do Inverno luta contra os Lannister em busca de vingança, Renly marcha para Porto Real querendo apenas um trono e Stannis tenta juntar um exército para conquistar o poder que acredita ser seu por direito.
Enquanto isso, Arya caminha para casa o mais rápido que pode e Sansa continua prisioneira de Joffrey. E do outro lado do mar, Daenerys cria seus dragões enquanto seus súditos diminuem a cada dia.

“Quero tornar meu reino belo, enchê-lo de homens gordos, belas donzelas e crianças sorridentes. Quero que meu povo sorria quando me vir passar.” (Daenerys Targaryen)

Quem está certo e quem está errado? Isso depende do ponto de vista e todos acreditam carregar a razão consigo. Mesmo que esta razão não seja a honra, mas sim o amor ou a autopreservação.
Afinal, como podemos culpar uma mãe por defender seus filhos e por dar a luz a bastardos quando foi obrigada a casar com um homem que não amava? Ou como negar o desejo de vingança quando seu pai ou irmão está morto injustamente?

“Lugares cruéis geram povos cruéis.” (Meistre Luwin)

E de que adianta rogar aos deuses por sucesso ou misericórdia quando cada rei acredita em uma entidade diferente e todos eles tiveram suas derrotas e vitórias? Como acreditar quando as punições vieram até mesmo para os mais fiéis e puros?
São essas questões que George Martin coloca para todos nós em sua obra e mais uma vez mostra que pontos de vista definem a opinião que se tem sobre as coisas ou o sentimento que cada um merece receber.

“Há um vazio dentro de mim onde um dia tive o coração.” (Catelyn Stark)

E dessa forma o autor constrói mais um volume incrivelmente bom e deixa uma vontade louca de pular para o próximo livro imediatamente. Uma obra escrita em torno do amor, o amor que gera o ódio, o desejo pelo poder, pela vingança ou ainda pela justiça, mas ainda assim, sempre gerados pelo amor.

“O amor é veneno. Um doce veneno, sim, mas mata do mesmo jeito.” (Cersei Lannister)


quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Herança, Christopher Paolini

E finalmente chegou à hora da resenha do último livro do Ciclo A Herança (Eragon, Eldest, Brisingr, Herança), e, pela última vez, aviso que se você ainda não leu os volumes anteriores e não gosta de spoilers, corre lá pra ler e depois vem aqui e compartilha sua opinião.

Herança começa com um gostinho de esperança de que a batalha contra o império pode sim ter os Varden como vencedores, mesmo que eles ainda não saibam exatamente como.
Depois de descobrir que a fonte do poder de Galbatorix vem dos Eldunarí, os corações dos dragões, Eragon percebe que na verdade essa é a força e a fraqueza do rei. Afinal, sem eles o cavaleiro seria como qualquer outro. Mas vamos combinar que não é tão fácil assim descobrir onde o homem guarda centenas de corações e simplesmente se livrar deles.
E é aí que entra finalmente a revelação da segunda parte do comentário que o menino-gato, Solembum, fez lá no primeiro livro:

“Depois, quando tudo parecer perdido e seu poder não for suficiente, vá até a pedra de Kuthian e diga seu nome para abrir o Cofre das Almas.”

E sinceramente, o Eragon foi meio lerdinho pra não perceber que era óbvio que no cofre das almas ele ia encontrar almas. Mas ainda assim, não eram almas de dragões o suficiente, porque Galbatorix continuava tendo muito mais corações que ele.
Então, mesmo ainda sem ter certeza de como poderiam vencer o Rei, aquele era o melhor momento desde o início da série para acreditarem que conseguiriam.
Além de tudo isso, o autor mais uma vez trabalha com capítulos focados em Roran e Nasuada, e principalmente os da Nasuada compõe os melhores momentos da narração (não sei vocês, mas eu simplesmente me apaixonei por ela, por ela e pela Angela, melhores personagens <3).
No entanto, a história finalmente chega ao fim com um gostinho de quero mais, o final não é ruim, mas acho que muitos esperavam ver Eragon e Arya finalmente como um casal, ou pelo menos que o protagonista encontrasse outra mulher para amar. E nesse ponto Paolini me decepcionou um pouquinho, tinha esperança que os dois trocassem pelo menos um beijinho antes do fim (sou romântica sempre, não tem jeito).
Ainda assim, a história é boa e o final também. O autor descobriu uma boa forma de derrotar Galbatorix e uma ótima pessoa para ser um novo Cavaleiro, melhorou muito do primeiro livro até o último, criou mistérios que prenderam a leitura e personagens apaixonantes. E nos agradecimentos ainda revelou que talvez, algum dia, volte a escrever dentro da Alagaësia.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

King And Lionheart

"E como o mundo chegou ao fim
Eu estarei aqui para segurar sua mão
Porque você é meu rei e eu sou o seu coração de leão"
King And Lionheart - Of Monsters and Men

O quarto cheirava a morte.

Simplesmente isso: Morte. Não que a morte pudesse ter algum cheiro específico, era diferente para cada um. Ali, era uma mistura de sangue, sujeira e fumaça, além de algo parecido ao mofo – não devia ser mofo, a janela estava aberta há tanto tempo.
Talvez fosse só a morte impregnando-se aos lençóis. Ou a vida que deixava o corpo e pairava por ali. Vida e Morte, qual era a diferença afinal?

— Não devia permitir que ficasse aqui me vendo morrer quando o reino precisa tanto de você. – ele falou lentamente, cada palavra um martírio.
— E como é que me impediria, meu querido Rei?
— Não impediria, nunca pude impedi-la de nada.
— Pôde me impedir de salvar-te. - não permitiu que fosse ao seu lado para a batalha e talvez isso tenha custado sua vida, ela ponderou, mas não deixou que as palavras deixassem os lábios.

Lianne sabia muito bem que sua perícia poderia salvá-lo, mas o Rei tinha os argumentos certos. Uma Rainha não deveria se misturar à guerra e facilitar o serviço dos inimigos de extinguir a linhagem do trono. Uma Rainha tinha que manter-se firme para as outras mulheres e crianças da corte que não podiam lutar.
Uma Rainha tinha que sobreviver.

— Deixei que meu orgulho me impedisse de tê-la ao meu lado. – os olhos dele mantinham-se fechados enquanto tentava falar o melhor possível.
— E eu deixei que minhas obrigações afastassem minha espada de seus inimigos. – ela apertava as mãos do amado.

Amado. Era tudo que ele era naquele momento, apesar de sempre chamá-lo de Rei ou Vossa Graça, na verdade era apenas seu amado. Nem amante poderia ser, já não havia tempo para aquilo. Amado era mais adequado, mais passado que futuro.
Ele abriu os lábios, mas as palavras não saíram. Apenas um murmúrio sem fundamento. A morte estava próxima demais para palavras.

— Sabe que nunca iria deixá-lo nesse momento, falhei durante a batalha, não repetirei o erro agora.

A Rainha esperou uma resposta. Tudo que ele fez foi fechar os lábios e soltar uma tosse fraca, mais para um sussurro do que outra coisa.
O sangue impregnava seu tronco, a armadura foi removida e o ferimento tratado, mas não fora o suficiente. O gume do inimigo foi fatal, mas aquele era o destino de um Rei afinal.

— Fiz com que seus inimigos pagassem por isso, Vossa Graça. – ela deixou uma lágrima escapar pelas pálpebras e acariciou a mão do Rei. – Seu reino continua vitorioso.

Tinham conseguido vitória, mas de que isso adiantava agora? Lianne preferia que tivesse perecido com ele. Suas vidas foram interligadas e agora a morte chegava apenas para ele. O mundo dele estava terminado e, ainda que com vida, o dela também perderia sua luz pela falta dele em seu campo gravitacional.

— Manterei seu Reino para ti. Sempre. – ela tentou confortá-lo, mas não sabia mais se ele entendia suas palavras.

As pálpebras dele estremeceram e se abriram por um momento, deixando que seus olhos encontrassem os dela numa despedida muda. Os dedos se apertaram uns nos outros com a maior força possível, mas apenas por um breve instante antes de relaxarem completamente. 

— Manterei meu amor por ti, querido. – ela deixou o título de lado. – E manterei minha bravura, juro. – deixou então as outras lágrimas caírem, sabendo que ele não poderia mais vê-las.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Brisingr, Christopher Paolini

Voltando depois de um tempo mais longo do que eu gostaria, como comentado na primeira resenha da série, terminei de reler Brisingr – terceiro livro do Ciclo A Herança (Eragon, Eldest, Brisingr e Herança) – e vim quase correndo fazer o post. Entretanto, mais uma vez aviso que se você ainda não leu os outros volumes da saga e não gosta de spoilers, não vou conseguir fazer a resenha direito sem comentar nada dos acontecimentos passados.

Em primeiro lugar, assim como em Eldest, esse livro também traz um resumo antes do primeiro capítulo, para relembrar os de memória fraca. Ainda como o segundo volume, a melhora na qualidade da escrita de Paolini é aparente, as descrições são mais detalhadas, as cenas de guerra cada vez mais vívidas e os personagens sempre mais envolventes.
Depois de se reencontrar com Roran, Eragon começa Brisingr cumprindo sua promessa de resgatar Katrina e terminando sua vingança contra os Ra’zac, criaturas responsáveis pela morte de Garrow e Brom, além de várias outras maldades (já era hora de dar um fim nessas criaturas horrendas!).
Apesar disso, muitas aflições ainda perturbam a mente do Matador de Espectros. Após ser derrotado por Murtagh e Thorn – cavaleiro e dragão aprisionados pro juramentos e comandados por Galbatorix – na batalha da Campina Ardente, ter perdido sua espada e ainda descobrir seu parentesco com Morzan, Eragon está cheio de incertezas e conflitos internos.
Conflitos estes que em grande parte se resolvem no decorrer do terceiro livro, através de novos ensinamentos de Oromis e Glaedr, revelações de Saphira e um incrível processo de forja.
Contudo, mesmo conseguindo descobrir uma fraqueza contra Galbatorix e vencerem Murtagh com a ajuda de alguns elfos, a guerra ainda está longe de terminar e humanos, anões e elfos têm muito que lutar.
Brisingr é ainda maior que os outros livros do Ciclo, mas cada página é mais empolgante que a outra e personagens antes não tão explorados ganham força e me fazem lembrar porque eu gostei tanto da obra pela primeira vez que li.
Além disso, agora os capítulos não são apenas de Eragon e seu primo, mas alguns também se voltam para a líder dos Varden, Nasuada e Saphira, mostrando um novo ângulo dos acontecimentos e uma pitada da personalidade dos dragões.

Se o ritmo de melhora continuar assim, não tenho dúvida que a saga terá um final maravilhoso e tornará a série uma indicação certa na minha lista.